A notícia, na semana passada, de que Pedro Horrillo resolvera pôr fim à carreira de ciclista, despertou-me um turbilhão de recordações e emoções. A começar, naturalmente, pela queda na última Volta a Itália que depois de o ter deixado em coma durante alguns dias acabou por ser a causa do seu abandono. Horrillo até recuperou muito melhor do que chegou a temer-se e a Rabobank até contava com ele – uma mostra de solidariedade que talvez só esteja ao alcance de uma equipa que é das melhor estruturadas do pelotão.
Só que o espanhol sentiu que não tinha condições para voltar ao nível anterior e preferiu reformar-se. Uma atitude notável, sobretudo num mundo – o do ciclismo e do desporto profissional em geral – onde o dinheiro é quem mais ordena!
Horrillo fechou a porta do ciclismo profissional e eu lembrei-me do dia em que as da minha mente se abriram para ele, ironicamente também por causa de uma desgraça: numa Volta a Portugal em que defendia as cores da Vitalício Seguros, na vertiginosa descida da Torre até Seia, chocou de frente – de cara – contra uma casa, num gancho a 90 graus à esquerda no centro de Seia. Aquilo que me ficou na memória desse choque frontal foi a expressão “horrível Horrillo”, que foi como entre nós, jornalistas a acompanhar a Volta, comentámos o sucedido, pensando em como ele teria ficado...
Na altura não dei o devido valor ao martírio que ele deve ter passado para recuperar da queda, dores, feridas, cicatrizes, a forma física, etc. Fora apenas uma queda de um ciclista então pouco mais do que anónimo e que só mais tarde vim a saber ter a alcunha de “filósofo”. Mas já então deveria ter prestado mais atenção a este Pedro Horrillo, com que hoje me sinto bastante identificado por, um pouco como eu, ter passado a vida entre uma queda e outra, entre um regresso e outro e ainda escrever sobre isso.
Regressar foi aquilo fiz naquele 1 de Janeiro de 1997, um dia de ano novo gelado em Braga, a primeira vez em que montei numa bicicleta depois do acidente de Agosto anterior. A distância não foi muita mas as dificuldades para voltar a casa sim, embora soubesse – naquele dia como hoje – que eram essas dores nas pernas e essa falta de força naquela terrível subida empedrada frente ao Liceu Sá de Miranda que me faziam sentir vivo de novo. Um êxito indescritível para alguém que, meses antes, estava imóvel numa cama de hospital.
De volta ao mundo dos vivos, depois de uns meses no limbo – foi isso que quis dizer Pedro Horrillo naquela magnífica crónica “Clic-clac”, publicada pelo jornal “El País” durante a Volta a Espanha (http://lacomunidad.elpais.com/vuelta-ciclista-espana-2009/2009/9/10/clic-clac). Horrillo voltara a pedalar depois da grave queda por uma ravina no Giro e que acabou por motivar o seu adeus ao ciclismo, mas naquele dia sentiu-se renascido. A dor que sentia nas pernas era prova disso e, como ele próprio escreveu, mais doloroso seria não poder fazê-lo.
Leio, pela enésima vez, essa crónica do ciclista-filósofo e salto dez anos em frente no tempo, até algures em 2007. Tinha uma GT nova em folha e tanto medo como vontade de ir nela para a rua. Havia de ser uma viagem curtinha, talvez até à Rotunda da Boavista, se me sentisse capaz. Não tinha sapatos de encaixe, mas é como se agora, ao lembrar-me desse momento, ouvisse o “clic-clac” dos pedais a que se referiu Horrillo numa alusão ao renascer, ao recomeçar. Nem quis vestir-me de ciclista, apenas um calção normal e uma sweat-shirt como um qualquer domingueiro... Subir e descer passeios parecia uma louca aventura, para quem meio ano antes estava imóvel numa cama de hospital. Estava novamente a regressar, sentia-me a renascer.
A essa GT seguiu-se uma Sunn, em honra de uma uma “irmã” mais velha, e depois uma outra, a que se juntaria a Felt de estrada e as recuperadas Gitane e Peugeot.

Hoje em dia, quem me vir passar – e, como eu, outros haverá -, certamente não imaginará os recomeços por que alguém aparentemente normal tem de passar e quantos mais será obrigado a sofrer na pele. “Podia ter sido pior, mas também melhor”, escreveu Horrillo. E, tal como o ciclista-filósofo, também eu quando ponho o pé em terra sinto o cansaço, a fadiga muscular que nunca sei quando passará. Mas sempre que a sinto, sempre que os pedais fazem “clic-clac”, sei que não será a última. Não sei até quando sentirei essa fadiga, mas por enquanto tudo o que quero é continuar a poder senti-la e a ouvir o “clic-clac” dos pedais. Não só por mim, mas por todos aqueles que não o podem fazer, pois só quem já se viu obrigado a recomeçar, a renascer, sabe o prazer dessa dor, o prazer do som dos pedais. “Clic-clac”!
Texto de João Araújo